Sunday, February 03, 2008

Quero plagiar!

É domingão de carnaval!
A canária Marieta Severo e o periquito Paulitcho aqui de casa amanheceram foliões hoje, cantando desde cedo.
Bom, num surto de preguiça criativa, estou cheia de apetite. Que saber, vou plagiar, ou melhor, vou postar aqui coisas que gostaria de ter escrito!

A única anormalidade é a incapacidade de amar.
Anaïs Nin

Quero lá saber de ter razão, eu quero é ser feliz.
Ferreira Gullar, em agosto de 2006, na Flip

"Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração"

Trecho de Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu

Monday, January 07, 2008

amor, cinema e sol

o homem que amo gosta de sol

luz européia tênue melhora o humor

ama fotografia
tem paixão por cinema
toma caipirinha
só ao sábado
no mesmo horário

o homem que amo quase nunca caminha pela rua

tem insufilme no carro
só come pão aos finais de semana
dias úteis só café puro
sofre com a solidão nas férias

um dia o homem que amo me levou ao templo de athenas
arrastou-me para uma ilha grega cheia de lendas

o homem que amo tem olhos agudos

de tanto ler
de tanto ver
a vida na tela
quase não abre as persianas do quarto
tirou da vista todos os meus retratos
deixou-os na gaveta de fotos
misturadas a tantos passados

o homem que amo
não mais me liga ao telefone

sempre tão pontualmente foi o homem que amo
sempre tão extasiante foi o homem que amo
tão sem vibração é o homem que amo

o homem que amo
não me deixa pegar táxi à noite
é meu amigo e atravessa a cidade para me levar embora para outra cidade
feito Elvis, ainda jovem, fazia com Linda, já famoso, primavera de amor

na carona
revela o homem que amo
não sofria com enchentes
no tamanduateí da infância eram dias de navegar os barquinhos de papel
não havia tragicidades
nada de reminiscências
era só o vaivém dos barquinhos

o homem que amo tem esteira aposentada no quarto
relógio de areia na sala
musicas de norah jones no mp3
ganhou coleção dos antigos de polanski
aprendeu física quântica
e fala alemão, desde criança
lê romances em francês
e dia desses comprou-me uma boneca

sabe pilotar avião o homem que amo
e gosta de azeites
torradas de alho

o homem que amo exibe no escritório
o retrato que dele fiz feito take de cinema
num país distante, em meio a sonhos em preto e
branco
em meio ao mar do mediterrâneo
em meio a dois cineastas
em meio a um sonho dele esquecido
em meio a seus impulsos adormecidos
em meio ao leve fluir do meu coração
em meio a tantos entremeios

o homem que amo quis ser cineasta
físico
diplomata
estrangeiro
piloto
amável
ligeiro
escritor
cavalheiro
menino

inesquecível companheiro
o homem que amo quis um dia muito me amar
não deixei

Monday, January 15, 2007

SEM ASSUNTO

NA FEIRA LIVRE

Nesse domingo, na feira livre que pega um quarteirão da Lorena, logo depois do cruzamento com a Augusta, me surpreendi com uma proposta de um feirante enquanto hesitava em levar mais frutas: "leva e paga na semana que vem. Se não tiver tudo, também pode me pagar na outra semana." Não não sei o nome dele, nunca o vi na vida e garanto que não foi paquera. E nesse mundo no qual por 5 centavos em um grande hipermercado você deixa o produto, a proposta dele me fez pensar com menos tragicidade nas decisões da vida. Foi a primeira vez que fui a uma feira nos Jardins. Os preços, claro, eram bem mais altos do que os praticados na feira do centro que costumava ir, perto da Praça Roosevelt. Mas caminhar naquela manhã ensolarada, feito formiga pelas barracas, me deu um sentimento de frescor. Vi o consertador de panelas, e me lembrei da infância. Uma barraca com todas aquelas coisas que a gente nunca lembra de comprar: borracha para a panela de pressão, pregos, tampas avulsas e inúmeras coisinhas que a minha vovó curtiria. Foi um belo exercício: de negociação, de austeridade. Se uma dúzia de laranjas é muita coisa para alguém que vive só, compra-se metade, da meia dúzia. Ok. E ainda ganha o chorinho de experimentar a tampinha. Deu pra trocar receitas, dicas de tempero, e ouvir vai com Deus. Sei lá, coisas boas, coisas simples da vida.

Saturday, January 13, 2007

SEM PRETENSÃO

UM TETO TODO SEU
A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficcção. A autoria da frase, ah!, não é minha, aliás, quem dera fosse. Quem dera ela ecoasse dentro de mim aos berros, bem maior que minha habitual letargia. Ela é de Virginia Wolf, proferida no ano de 1928, em uma conferência a ela encomendada para falar sobre a mulher e a ficção. Pois é, Virginia, lá naqueles tempos, achava muito lamentável o fato de a geração anterior, mães e avós, não saber fazer dinheiro. Se tivessem tido essa aptidão, era a tese de Virginia, a geração dela poderia se dar ao luxo de trabalhar em um escritório entrando por volta das 10 horas e deixá-lo não após às 16. Assim teriam tempo de ir para casa a tempo de escrever poesia no final da tarde.