o homem que amo gosta de sol
luz européia tênue melhora o humor
ama fotografia
tem paixão por cinema
toma caipirinha
só ao sábado
no mesmo horário
o homem que amo quase nunca caminha pela rua
tem insufilme no carro
só come pão aos finais de semana
dias úteis só café puro
sofre com a solidão nas férias
um dia o homem que amo me levou ao templo de athenas
arrastou-me para uma ilha grega cheia de lendas
o homem que amo tem olhos agudos
de tanto ler
de tanto ver
a vida na tela
quase não abre as persianas do quarto
tirou da vista todos os meus retratos
deixou-os na gaveta de fotos
misturadas a tantos passados
o homem que amo
não mais me liga ao telefone
sempre tão pontualmente foi o homem que amo
sempre tão extasiante foi o homem que amo
tão sem vibração é o homem que amo
o homem que amo
não me deixa pegar táxi à noite
é meu amigo e atravessa a cidade para me levar embora para outra cidade
feito Elvis, ainda jovem, fazia com Linda, já famoso, primavera de amor
na carona
revela o homem que amo
não sofria com enchentes
no tamanduateí da infância eram dias de navegar os barquinhos de papel
não havia tragicidades
nada de reminiscências
era só o vaivém dos barquinhos
o homem que amo tem esteira aposentada no quarto
relógio de areia na sala
musicas de norah jones no mp3
ganhou coleção dos antigos de polanski
aprendeu física quântica
e fala alemão, desde criança
lê romances em francês
e dia desses comprou-me uma boneca
sabe pilotar avião o homem que amo
e gosta de azeites
torradas de alho
o homem que amo exibe no escritório
o retrato que dele fiz feito take de cinema
num país distante, em meio a sonhos em preto e
branco
em meio ao mar do mediterrâneo
em meio a dois cineastas
em meio a um sonho dele esquecido
em meio a seus impulsos adormecidos
em meio ao leve fluir do meu coração
em meio a tantos entremeios
o homem que amo quis ser cineasta
físico
diplomata
estrangeiro
piloto
amável
ligeiro
escritor
cavalheiro
menino
inesquecível companheiro
o homem que amo quis um dia muito me amar
não deixei
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